05 Apr
A utopia do planejamento e o planejamento da utopia: o longo caminho para o alcance da justiça social
Lido 4438 vezes | Publicado em Artigos Científicos | Última modificação em 06-04-2017 14:09:19
 
Crédito: The City Fix Brasil
tamanho do texto reduzir tamanho do texto aumentar tamanho do texto
Qualifique este item
(1 vote)

Neste artigo apresentado no XIV Colóquio Internacional de Geocrítica, Rainer Randolph (IPPUR/UFRJ) defende a necessidade e a importância da elaboração de uma perspectiva não-instrumental do planejamento como uma utopia que está inserida nas próprias contradições (potencialidades) das sociedades contemporâneas e, neste sentido, “não-utópica”. A análise lança mão de uma abordagem que contempla a produção social da realidade na sua dimensão histórica, e procura oferecer pistas para uma compreensão diferente da potencialidade do planejamento, e na sua inserção para uma transformação profunda da sociedade capitalista.

O artigo “A utopia do planejamento e o planejamento da utopia: o longo caminho para o alcance da justiça social”, foi apresentado no XIV Colóquio Internacional de Geocrítica realizado pela Universidade de Barcelona, cujo tema foi “Las utopías y la construcción de la sociedad del futuro”.

A Rede INCT Observatório das Metrópoles divulga a análise do professor Rainer Randolph, parceiro vinculado ao Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), com o propósito de ampliar a reflexão e o debate sobre os rumos do planejamento urbano no Brasil e no mundo.

Leia também:

Insurgência, planejamento e a perspectiva de um urbanismo humano (Por Faranak Miraftab)

INTRODUÇÃO — A UTOPIA DO PLANEJAMENTO

Por Rainer Randolph

Após anos de relativo ostracismo de temáticas como desenvolvimento e planejamento nos países sob domínio do projeto neoliberal (Consenso de Washington) – e o Brasil foi um deles até o início do novo milênio -, intervenção e planejamento públicos se viram alçados a formas indispensáveis para reestabelecer ordem e crescimento no bojo da crise financeira mundial de 2008. De alguma forma, as maciças intervenções nos países do Norte e especialmente aquelas realizadas pelo governo dos Estados Unidos da América conseguiram evitar que a ameaça ao próprio sistema capitalista se tornasse real.

Durante essa crise, num primeiro momento, alguns cientistas imaginavam que a crise pudesse abrir caminho para um futuro – uma utopia – no qual a organização da sociedade (capitalista) não seja mais atribuída, preponderantemente, aos mecanismos de mercado. Entretanto, hoje, poucos anos depois, parece que essa esperança está minguando.

Especialmente no Brasil, os desdobramentos da recente crise, que tomou conta do país de uma forma avassaladora, parece tornar inviável a perspectiva que Estado e planejamento pudessem contribuir, legitima e duradouramente, à construção de uma nova sociedade na qual o neoliberalismo perdesse sua força hegemônica e se iniciasse o advento – sem revolução e nem golpe - de uma sociedade mais justa e menos desigual. Em outras palavras, parece ter fracassada a ideia do planejamento abrir um caminho para uma utopia social – ou seja de um planejamento de uma utopia.

Na verdade, o planejamento, nos países capitalistas, nunca servia para este propósito; ao contrário, tradicionalmente, foi um instrumento para consolidar e reproduzir o sistema; uma ―utopia‖ de conservação (reprodução) do status quo. Portanto, um planejamento de uma (verdadeira) utopia exigiria um outro planejamento que romperia com esta tradição. Ou seja, para poder falar de um planejamento da utopia teria que se supor uma outra utopia: um planejamento — como utopia – que não se distinguiria apenas pelo simples acréscimo de algum novo adjetivo de tantas outras formas preexistentes mas pela ruptura com essas modalidades anteriores – é por isto que se fala no título deste trabalho de um contra-planejamento.

Colocado em outros termos: ao imaginar que o caminho em direção a uma utopia social como a de uma sociedade justa, igualitária, democrática etc. pudesse ser facilitado ou mesmo possibilitado pelo planejamento, ou seja, que houvesse a possibilidade de um planejamento dessa utopia seria necessário construir, antes, uma utopia do próprio planejamento.

Porém, por sua vez, é difícil imaginar um planejamento diferente essa utopia do planejamento no contexto da sociedade capitalista presente. Ou seja a realização de uma utopia do planejamento parece pressupor uma outra sociedade aquela sociedade utópica – que seria o resultado do planejamento. Em termos lógicos, estamos aqui diante de um aparente paradoxo onde a produção (social) de um fenômeno pressupõe sua própria existência enquanto condição; em outras palavras, o resultado é condição para sua própria produção. Ou ainda, a utopia do planejamento pressuporia a realização de uma utopia (social) para cuja produção este novo planejamento seria pressuposto (ao menos para superar as força reprodutoras do tradicional planejamento).

Esse paradoxo deixa de existir quando se compreende a realidade (social) como socialmente produzido (uma produção social) onde condições e resultados desse processo estão vinculados histórica e dialeticamente.

Por isto, a primeira parte do atual ensaio vai ser dedicada a um confronto entre três compreensões de planejamento que trazem em seu bojo uma reflexão sobre a trajetória de suas formulações em diferentes momentos históricos e distintas condições sociais e políticas.

Não é o caso aprofundar uma discussão sobre diferentes formas ou modelos de planejamento, mas chamar atenção para o fato que muitas das propostas de planejamento concretamente discutidas e implantadas negligenciam as próprias condições sociais da sua formulação e realização e atribuem, aí sim paradoxalmente, seus possíveis fracassos a estas condições que, propositadamente, não foram levados em condição na hora da sua formulação.

O planejamento compartilha, assim, uma negação que caracteriza qualquer intenção de transformação da realidade na medida em que procura, de alguma maneira, superar uma realidade presente (a ser transformada) a favor de um futuro possível. É uma característica de todas as utopias como veremos também na primeira parte do presente ensaio por meio de uma breve reflexão sobre o esgotamento das energias utópicas nos tempos atuais, onde o Habermas se debruça sobre uma certa trajetória da utopia.

É intenção dessa primeira parte iniciar uma argumentação que seguirá durante o ensaio inteiro é comprovar que – apesar de tudo – faz sentido e é importante elaborar uma perspectiva não-instrumental do planejamento como uma utopia concreta, como se verá mais adiante, que está inserida nas próprias contradições (potencialidades) das sociedades contemporâneas e, neste sentido, socialmente localizada. É nossa hipótese que a própria práxis desse planejamento o torna utópico na medida em que vai contribuir, durante a realização de suas potencialidades, para a construção da uma utopia social da qual é elemento constituinte — condição e resultado.

O raciocínio aqui desenvolvido lançará mão de uma abordagem que contempla a produção social da realidade na sua dimensão histórica; ou, em outras palavras, que estuda a realidade (sociedade) ―em movimento. Conforme Lefebvre, para conseguir isto, torna-se necessário que o próprio pensamento (que faz parte dessa realidade/sociedade) se coloca em movimento o que significa, por sua vez, que apenas uma abordagem dialética vai dar conta dessa realidade. Dar umas primeiras pistas para uma compreensão diferente da potencialidade do planejamento – é isto é apontar para uma utopia é a finalidade última das páginas que se seguem.

Leia o artigo completo no link “A utopia do planejamento e o planejamento da utopia: o longo caminho para o alcance da justiça social”.



Etiquetado como:
O laboratório da Coordenação Nacional da Rede INCT Observatório das Metrópoles está temporariamente fechado, por conta do incêndio ocorrido, no começo de outubro, no Prédio da Reitoria da UFRJ.

Pedimos que os contatos sejam realizados pelos seguintes e-mails:

Elizabeth Alves
beth@observatoriodasmetropoles.net

Assuntos administrativos

Karol de Souza
karol@observatoriodasmetropoles.net

Assessoria de Comunicação

Breno Procópio
comunicacao@observatoriodasmetropoles.net

Assuntos Acadêmicos

Juciano Rodrigues
juciano@observatoriodasmetropoles.net