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Projeto
Apresentação

Considerando-se que há uma carência de estudos que busquem uma verificação mais apurada do legado deixado para cidades-sede de mega-eventos esportivos, pois muitos destes se atêm a aspectos meramente econômicos (reflexos no PIB, na geração de renda e emprego, investimentos públicos e privados, vide IPEA, 2008 e FIPE, 2009), considerando-se a ausência de estudos que abarquem as conseqüências sociais, ambientais, simbólicas e territoriais, além das econômicas, e considerando-se a necessidade de um acompanhamento mais próximo e embasado da população no que se refere ao processo de modificações estruturais que deverão ocorrer na malha urbana dos municípios envolvidos, faz-se necessário construir instrumentos analíticos que possibilitem uma abordagem mais apropriada para tratar da nova realidade que começa a tomar forma. Esta iniciativa é essencial para que sejam identificados os reais ônus e benefícios oferecidos à população e para que seja possível fortalecer os subsídios às políticas públicas e às tomadas de decisão que envolverão a atuação do Estado neste âmbito, o que só é possível por meio de um monitoramento constante e contemporâneo ao processo transformador ao qual a cidade estará submetida.

Neste sentido, o presente projeto de pesquisa visa desenvolver formas de mensuração das alterações territoriais oriundas dos mega-eventos esportivos, ou seja, dos impactos relacionados à Copa do Mundo de 2014 e aos Jogos Olímpicos de 2016. Intenciona-se, sobretudo, elaborar uma nova metodologia e novos indicadores, baseados na construção de um banco de dados, que possibilitem ampliar o espectro analítico, abarcando as transformações físico-territoriais, sócio-econômicas, ambientais e simbólicas, assim como suas interpenetrações, inevitavelmente atreladas aos mega-eventos esportivos e ao tipo específico de urbanização deles decorrente, isto é, a urbanização turística. Especial ênfase será destinada à distribuição dos benefícios e dos custos nas diversas esferas que envolvem o processo de adequação da cidade às exigências infra-estruturais para a realização dos referidos eventos, partindo-se de um ponto de vista comparativo em relação a experiências similares anteriores.

 

Objetivos

Elaboração e aplicação de instrumentos de monitoramento dos impactos relacionados  à Copa do Mundo de 2014 e aos Jogos Olímpicos de 2016 na estrutura urbano-metropolitana onde serão realizados estes eventos, para além dos tradicionais instrumentos de mensuração econômica, correntemente utilizados. Neste sentido, intencionam-se elaborar uma metodologia e indicadores, baseados na experiência acumulada pelo Observatório das Metrópoles e utilizando a rede de instituições e pesquisadores já existente, constituída há 17 anos, envolvendo 97 principais pesquisadores e 59 instituições universitárias de pós-graduação, ONG´s e centros estaduais de pesquisa. Visa-se, com isso, permitir ao poder público um maior poder de decisão a partir dos estudos e indicadores produzidos, de forma a se maximizar os benefícios e minimizar os custos sociais resultantes dos eventos, além de desenvolver instrumental teórico e metodologia que possam ser aplicados a outros casos similares.

 

Descrição do Projeto

Com as mudanças ocorridas a partir da década de 70 do século passado no sistema de acumulação de capital, isto é, a transição do que se convencionou chamar de sistema fordista para o sistema de acumulação flexível (HARVEY, 1993), algumas atividades econômicas ampliaram sua participação e importância na geração de riquezas da economia mundial, enquanto outros setores, inversamente, perderam espaço, seja em volumes absolutos seja na dimensão relativa. Destaca-se o crescimento do setor de serviços em detrimento do setor industrial, tendo-se em vista os diversos indicadores econômicos que apontam para estas transformações, em especial aqueles relativos à atividade turística, que já alcançou a marca de 11,5 % na geração do PIB mundial (UNEP apud SLOB; WILDE, 2008), estando no rol de atividades econômicas que mais movimentam capital no mundo. É com este grande peso econômico do turismo que se reconhece sua força na recente formação sócio-espacial, especialmente em países em desenvolvimento, os quais muitas vezes recorrem à atividade em busca de melhorias sociais e econômicas.

Este direcionamento tem resultado em uma nova forma de urbanização, chamada de urbanização turística, que consiste basicamente na criação de espaços urbanos voltados ao lazer de visitantes e às exigências infra-estruturais que lhe são correlatas, colocando em evidência a predominância de setores como o imobiliário e o hoteleiro, mercadologicamente direcionados a uma variável exógena, isto é, o turista e suas demandas (LUCHIARI, 1999; CRUZ, 1999; MASCARENHAS, 2001; MELO, 2009). É particularmente notável o número cada vez maior de cidades inseridas nesta nova realidade ao longo das últimas décadas, em especial o acompanhamento destas mudanças pelo planejamento urbano, progressivamente direcionado à captação de recursos externos e à aplicação de técnicas empresariais na administração de municípios, caracterizando o que se convencionou chamar de empresariamento urbano (HARVEY, 1996).

Neste contexto, a atração de eventos de porte internacional, sobretudo os mega-eventos esportivos, tem sido encarada por empresários, planejadores e governantes como uma forma de se dinamizar a economia local em grandes cidades e de se tentar resolver graves problemas relacionados às desigualdades sociais e aos efeitos de sobrecarga física sentidos nas diversas metrópoles globais. Foi a partir destes pressupostos que o governo do município do Rio de Janeiro, em parceria com o estado e a União, lançou sua candidatura à cidade-sede das Olimpíadas de 2016 e da Copa do Mundo de 2014, tendo sido escolhida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) para sediar os respectivos eventos, após algumas iniciativas mal-sucedidas de receber os Jogos Olímpicos de 2004 e de 2012.

Apesar do marketing (público e privado) desenvolvido e da campanha de formação de consensos políticos, a recepção desses dois mega-eventos no Brasil entre 2014 e 2016 ainda não foram amplamente debatidos e confrontados com outras perspectivas, suscitando muitas dúvidas quanto aos reais benefícios e custos decorrentes da realização destes eventos em uma rede de metrópoles marcada por elevados níveis de desigualdade social. A mobilização de consideráveis contingentes populacionais se opondo às candidaturas de países e cidades para sediarem tais eventos, como pôde ser notado nos casos de Chicago e Tóquio durante a última disputa relacionada às Olimpíadas, apenas reforçam as incertezas mencionadas, principalmente tendo em vista que ambos os países já passaram pela experiência de sediar os Jogos Olímpicos em oportunidades anteriores.

Assim, este projeto abordará especificamente o processo contemporâneo referente à alteração da infra-estrutura urbana nas cidades onde se realizarão os eventos (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza, Natal, Manaus e Cuiabá), bem como seus desdobramentos sócio-espaciais. A maior parte dos novos equipamentos urbanos previstos é voltada às áreas de esporte e lazer, enquanto os demais se direcionam à complementação de infra-estrutura básica, principalmente transporte que permita o deslocamento de atletas e turistas (agentes externos), e de infra-estrutura turística, sobretudo o parque hoteleiro municipal (BRASIL, 2009).

Com o intuito de se realizar uma aproximação mais abrangente possível em relação ao cenário descrito e para que os objetivos traçados sejam alcançados, a metodologia utilizada será qualitativa e quantitativa, tendo por base a observação e análise do atual fenômeno aliada à comparação com experiências anteriores tanto no Brasil (XV Jogos Pan-americanos em 2007) quanto em outros países, a partir de revisão bibliográfica concisa e de utilização de fontes primárias, de maneira a fomentar uma postura crítica frente aos processos sociais verificados. A análise deverá se pautar pela utilização de quatro eixos estreitamente ligados à inserção da população nos seguintes contextos de transformações territoriais, quais sejam:

Resultados Esperados

Desenvolvimento de ferramentas de acompanhamento, monitoramento e transferência de resultados da análise dos impactos dos eventos citados: banco de dados, construção de metodologia, elaboração de indicadores de avaliação específicos. Ressalte-se que as referidas ferramentas serão construídas a partir dos avançados recursos de espacialização de dados sócio-econômicos / jurídico-institucionais dos quais o Observatório das Metrópoles já dispõe, como o Metrodata, o Servidor de Mapas e o Sistema de Informações para a Pesquisa e Planejamento Metropolitano (OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES, 2009). Com base na utilização dos indicadores oriundos destes sistemas de monitoramento, os quais estão relacionados às condições sociais das diferentes regiões metropolitanas envolvidas (Distribuição de renda, carência habitacional, Índice de Desenvolvimento Humano, dentre outros calcados nos dados gerados pelos censos de 1991, 2000 e 2010); na visualização de sua distribuição territorial, que contará com a utilização de imagens de satélite; e no cruzamento deste arcabouço com a nova metodologia criada para a análise dos impactos ligados aos mega-eventos esportivos, que estará baseada nos planos de preparação das cidades e em outros documentos de entidades diversas ligadas à questão, será possível detectar possíveis inflexões nas tendências urbano-metropolitanas até então identificadas, em virtude do acontecimento da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 no Brasil. Portanto, o desenvolvimento destas ferramentas possui papel fulcral e decorrerá do aprimoramento no monitoramento já articulado pelo Observatório das Metrópoles, de forma a articulá-lo com as especificidades da (re) urbanização vinculada aos mega-eventos através de novos indicadores e metodologia já citados.

Produção de 12 livros dedicados à avaliação dos projetos de frente às tendências de transformação nas cidades diretamente impactadas: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza, Natal, Manaus e Cuiabá.

Realização de 12 Seminários Locais e 1 Seminário Nacional envolvendo os atores do poder público, da iniciativa privada, da sociedade civil e da academia;

Disponibilização de banco de dados de fácil acesso e operação, além de diversas publicações voltadas aos atores sociais e agentes públicos envolvidos. Além disso, haverá provimento de orientação que venha a ser necessária, de forma a garantir a efetividade na transferência de resultados para os diversos setores da sociedade. Alguns instrumentos, como a utilização de ferramentas wiki/web, serão utilizadas para facilitar o acesso público via internet, além de permitir a existência de um sistema único nacional na  elaboração de resultados, onde os diferentes núcleos poderão contribuir de maneira rápida, eficiente e conjunta na construção de documentos diversos. Encontros com os atores sociais envolvidos também deverão proporcionar possíveis esclarecimentos necessários.